EFELisboa

O segundo Governo consecutivo de António Costa, de novo em minoria mas esta vez mais só por carecer de alianças com a esquerda para toda a legislatura, leva a Portugal a repetir como um dos poucos países da Europa governados por partidos de corte social-democrata.

Lisboa revalida-se num grupo que compõem a Dinamarca, Suécia, Finlândia, Eslováquia, Malta e a Espanha, cujos Executivos lideram a centro-esquerda, e que acaba de minguar com a queda dos social-democratas na Romênia após uma moção de censura.

Embora também em Copenhague a opção é um Governo social-democrata em minoria, o caso de Portugal é especial pelo auge econômico que acompanhou a primeira legislatura de Costa, o que deu aos socialistas lusos uma força e solidez diferente à do resto de colegas europeus.

Isso explica em parte a sua subida nas eleições legislativas do domingo, nas quais aumentaram vinte deputados e ficaram a dez da maioria absoluta, mas não só.

Estas são algumas chaves.

ESTABILIDADE, UMA OBSESSÃO PORTUGUESA

A estabilidade, quase uma obsessão da classe política nacional - e do próprio caráter português, alérgico a conflitos -, conseguiu que desde 2015 governe quem pode, e quem não, não moleste.

É a primeira chave da solidez da famosa "via portuguesa", que faz quatro anos uniu num acordo inédito à esquerda "muito desigual" para apoiar um Governo socialista em minoria, toda uma exceção em um momento de grave crise para a social-democracia na Europa, destaca à Efe a analista política Paula do Espírito Santo.

Num momento en que no velho continente os conservadores ganhavam espaço e apareciam movimentos de extrema direita, em Portugal se criava uma sorte de oásis encorajado pela favorável conjuntura internacional, que lhe situou no mapa do turismo em massa e empurrou as suas exportações.

A bonança econômica permitiu algumas melhorias sociais num país que segue padecendo a austeridade em forma de despesa pública limitada, e freou durante vários anos aos movimentos de extrema direita, incapazes de atrair voto descontente.

Até agora, que entrou no Parlamento o partido de extrema direita Chega, com um deputado.

"Talvez fosse uma questão de tempo, porque sempre haverá público para este tipo de mensagens em democracia, já que a democracia não resolve todos os problemas", reflexiona Espírito Santo.

ALIANÇAS, MAS COM GOVERNO MONOCOLOR

Com o novo governo, se mantém essa fórmula monocolor que caracterizou ao primeiro gabinete de António Costa, embora esta vez prescindirá de acordos formais para toda a legislatura.

A ideia dos socialistas é negociar acordos pontuais com os cinco partidos de esquerdos presentes no Parlamento para garantir a estabilidade do novo curso político.

O defenderam como solução para "não deixar a ninguém atrás", ou seja, tratar a todos por igual, o que obrigará ao primeiro-ministro a abordar com cada um dos seus possíveis aliados acordos fundamentais, como os próximos Orçamentos do Estado.

Na opinião de Espírito Santo, não será difícil para António Costa.

A analista política destaca a "capacidade negociadora" do primeiro-ministro, que antes de chegar ao Governo foi autarca de Lisboa, cargo no qual "estava acostumado a negociar a esquerda e direita".

FORTES EM UM CLUBE LIMITADO

Com o seu segundo Governo socialista, Portugal se faz forte em um pequeno grupo de Executivos de corte social-democrata na Europa.

Suécia, Eslováquia, Finlandia, Malta e Espanha também estão governados por líderes desta tendência, embora com matizes.

Só Dinamarca conta com um Governo monocolor em minoria ativo, já que em Espanha o gabinete se encontra atualmente interino.

O mais habitual é a coligação. Na Suécia, de social-democratas e verdes (em minoria), na Finlândia de cinco partidos, na Eslováquia entre quatro.

Na outra margem, Malta, onde governa sozinho o Partido Trabalhista com uma maioria absoluta obtida pelo primeiro-ministro Joseph Muscat nas eleições antecipadas do 2017.

SOCIAL-DEMOCRATAS NÃO LÍDERES, MAS PRESENTES EM GOVERNOS

A chamada "remontada" da social-democracia se observa na sua presença noutros Executivos europeus, embora não sejam eles quem os dirijam.

É o caso da Alemanha, onde governa uma grande "coligação" dos dois principais blocos, o conservador e o social-democrata, ou da Itália, onde se forjou recentemente uma aliança entre o Partido Democrata e o antisistema Movimento 5 Estrelas (M5S).

Também estão presentes no Governo de Luxemburgo, na República Checa, na Eslovênia, e a Lituânia.