EFELisboa

Portugal despediu-se esta quarta-feira do militar Otelo Saraiva de Carvalho, falecido no domingo e recordado por desenhar o plano para realizar a Revolução dos Cravos, entre polémica por não ter sido decretado um dia de luto nacional.

Otelo Saraiva de Carvalho, que faleceu no último domingo aos 84 anos, é considerado um símbolo histórico da revolução que acabou com a ditadura salazarista mas também uma figura polémica devido às suas posteriores associações com uma organização terrorista.

Dois âmbitos da sua vida que foram igualmente recordados desde o seu falecimento no Hospital Militar de Lisboa por causas não especificadas e que levaram a uma examinação à lupa das reações políticas do seu óbito e, depois, da sua despedida, sobre a qual não foi decretado um dia de luto nacional.

A circunstância gerou críticas pelo papel relevante de Saraiva de Carvalho na revolução de 25 de abril de 1974, embora segundo o primeiro-ministro, o socialista António Costa, é apenas "coerência", pois outros militares da revolta não tiveram luto nacional na altura do seu falecimento.

"O Estado tem que tentar manter a coerência e consistência relativamente à forma em que homenageia os que nos deixam", disse Costa aos jornalistas à saída do velório do capitão de abril e enquanto dezenas de pessoas protestavam aos gritos de "luto nacional".

"Ninguém diminui", acrescentou, a "importância e relevância" de Saraiva de Carvalho.

A decisão de decretar luto nacional pertence ao Governo mas conta com o apoio de outras figuras de Estado, como o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que disse considerar que o Executivo não ativou o luto nacional para não abrir um debate sobre que nomes são mais importantes que outros na revolução.

De todos os militares que participaram no levantamento de abril de 1974, só António Spínola, falecido em 1996, teve direito a luto nacional, mas pela sua condição de antigo presidente da República (o primeiro após a revolução).

A última despedida de Saraiva de Carvalho foi realizada esta quarta-feira na intimidade familiar e com meia centena de pessoas perto da Capela Militar, em Lisboa, que reiteraram à imprensa as críticas sobre a ausência de luto nacional e lançaram cravos vermelhos à saída do carro que transportava os restos mortais de miltar.

Nascido em 1936 em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital da então colónia portuguesa de Moçambique, Saraiva de Carvalho passou a maior parte da sua infância e juventude em África, onde foi um dos responsáveis pela inteligência militar em Angola.

Em 1973 é transferido para Lisboa, onde começa a organizar as reuniões que forjaram o golpe contra a ditadura salazarista.

Foi Saraiva de Carvalho quem concebeu e dirigiu as operações militares que cercaram o Quartel do Carmo, onde se encontrava o primeiro-ministro Marcello Caetano (herdeiro de Salazar) e cuja rendição ditou o sucesso da revolta.

Tornou-se assim numa das principais faces do 25 de Abril e fez parte do Conselho da Revolução.

Saraiva de Carvalho alinhou-se com a ala mais radical do Movimento das Forças Armadas e passou três meses na prisão pelo seu envolvimento no levantamento de esquerda de 25 de novembro de 1975.

A imagem do capitão ficaria marcada anos mais tarde ao voltar à prisão pelas suas ligações com a organização terrorista esquerdista Forças Populares 25 de Abril (FP-25), que deixou várias vítimas mortais no país.