EFEOeiras (Portugal)

Fazer fila, receber a dose e esperar para ver se há reação alérgica. Ao todo, um máximo de quarenta minutos para ser vacinado contra o coronavírus em Portugal, onde se pisou no acelerador face ao receio de que novos atrasos das farmacêuticas adiem a sua data para a acabar com a pandemia.

Tal como os restantes países da União Europeia, as doses são injetadas em Portugal desde 27 de dezembro, e o país conta com um balanço modesto em dois meses: apenas 3% da população do país, de dez milhões de habitantes, está já imunizada, ou seja, com as duas doses.

Uma percentagem que se explica em grande medida pelos atrasos das farmacêuticas. O plano inicial era que os portugueses recebessem no primeiro trimestre 4,4 milhões de doses, mas agora irão receber no máximo 2,5 milhões.

Não é o único contratempo. A tarefa tem estado cercada de várias polémicas, como a modificação dos grupos prioritários ou a vacinação irregular de pessoas não prioritárias.

Este último levou à demissão do responsável pelo plano de vacinação, Francisco Ramos, substituído neste mesmo mês por um militar, o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, que promete disciplina de calendário: 70% dos portugueses imunizados até final de verão e "velocidade de cruzeiro" na vacinação nessa estação.

O ritmo, que aumentou na última semana, aperfeiçoa-se no município de Oeiras.

VACINAÇÃO EM CADEIA

O pavilhão desportivo Carlos Queiroz de Oeiras é um exemplo do que o Governo português espera que seja a vacinação veloz já a partir do segundo trimestre deste ano, e para o qual pediu aos autarcas que se preparem.

"Reservem a energia", pediu recentemente o primeiro-ministro, António Costa, quando soube dos novos atrasos na entrega de doses.

O seu pedido não foi ouvido no pavilhão, onde são injetadas cerca de 400 doses diárias num processo de pouco mais de meia hora desde o momento em que os pacientes se colocam na fila, convocados em curtos intervalos de tempo marcados com antecedência, o que ajuda ao rápido avanço.

"Desde que entram, fazem o registo, passam aos gabinetes e esperam o necessário tempo de recuperação (para comprovar que não há reações alérgicas) passam ao todo 40 minutos", conta à EFE a enfermeira Lurdes Costa e Silva, que, ao lado de outra colega, esta a cargo da coordenação do pavilhão.

No amplo recinto desportivo, colocado à disposição pela Câmara de Oeiras e agora coberto por um tapete azul, foram levantados 12 gabinetes onde as doses são injetadas, fundamentalmente da Pfizer, e habilitado uma ampla zona com cadeiras para aguardar que não haja uma reação adversa.

Nessa eventualidade, há uma médica no recinto e um par de ambulâncias à porta. Desde que começaram a vacinar a 10 de fevereiro, não foram necessárias.

O ritmo é rápido. Entra a dona Ana Paula, com algo mais de 80 anos, e as enfermeiras Vanessa e Carla explicam-lhe no gabinete o que pode esperar, tais como dores no braço, e avisam que deverá voltar dentro de três semanas para a segunda dose.

Ana Paula sorri, antes de dizer que o primeiro que irá fazer é reunir-se com a família; 2020 foi um ano muito duro para ela.

"Vêm todos com muito bom ânimo, muito contentes", assegura Vanessa à Efe, enquanto outra colega desinfeta a cadeira em que Ana Paula esteve sentada; de seguida entra António Vieira Marques, de 79 anos, acompanhado da sua filha Mafalda e desejoso de brincar com as enfermeiras.

Depois de assegurar que tem uns "vinte anitos", recebe também a sua dose, com planos similares à sua antecessora: uma grande reunião, com amigos ou família. É o desejo comum dos vacinados nesta fase, maiores de 80 ou pessoas algo mais novas com outras patologias.

VOLUNTÁRIOS E SACOS DE OFERTA

António e a filha passam depois à zona de espera, com uma centena de cadeiras com uma distância de segurança entre si. São orientados por duas dezenas de voluntários da Câmara de Oeiras, que assistem outros 20 enfermeiros que trabalham nos gabinetes ou balneários, onde as doses são preparadas a um bom ritmo.

"O ritmo aumentou porque chegaram mais vacinas", admite Costa e Silva, que prevê continuar a injetar doses a 400 pessoas por dia durante março "se nada falhar ao nível da Europa".

E depois? "Depois vemos, tudo depende do fornecimento de vacinas", responde.

Passou meia hora e António e Mafalda estão prontos para ir embora, com um último detalhe dos voluntários, um saco no qual encontram gel desinfetante, máscara e alguns folhetos informativos sobre o coronavírus. Já falta menos para a grande reunião.

Por Cynthia de Benito