EFELisboa

É uma debilidade para os portugueses e uma nova via de financiamento do seu Património. A "raspadinha", o jogo mais popular de Portugal, vai ser ampliada para proteger a cultura em plena crise da pandemia, uma ideia que gera inquietação em especialistas, preocupados com o forte vício que gera.

"Surpreendente" é um dos adjetivos mais repetidos para falar da proposta do Governo do socialista António Costa de criar uma "raspadinha" específica para financiar o Fundo de Salvaguarda de Património Cultural, que será começado a emitir no próximo ano.

O Ministério da Cultura aponta à Efe que calculam arrecadar com esta iniciativa -presente no Orçamento para 2021, que se vota na quinta-feira- 5 milhões de euros anuais, num contexto económico que estará marcado pela pandemia.

Mas a ideia causou inquietação. A sua chegada é anunciada poucos meses depois de um pioneiro estudo alertar que as "raspadinhas" que já existem começam a ser um vício preocupante em Portugal, onde em 2018 esta aposta teve umas vendas totais de 1.594 milhões de euros -uma média de 160 euros por cada português-.

Na vizinha Espanha, com uma população cinco vezes superior, as vendas em produtos similares foram de 627 milhões, 14 euros por cada cidadão.

UMA PROPOSTA "MUITO SURPREENDENTE"

"Esta proposta é muito surpreendente, porque o Estado deve ser só o regulador do jogo, não deve ser o promotor do jogo, e ao lançar uma proposta assim, o Estado está a incentivar, embora diretamente, o uso da 'raspadinha' para benefício público", destaca à Efe o psiquiatra Pedro Morgado.

Morgado, investigador na Escola de Medicina da Universidade do Minho, é co-autor do estudo que lançou o alarme, publicado em fevereiro na revista "The Lancet Psychiatry", na qual se alerta sobre a popularidade deste produto, sobretudo desde 2010, coincidindo com os piores anos da crise e o resgate.

"Começamos a dar conta que tínhamos nas consultas médicas mais casos de pessoas com vícios de 'raspadinhas' e tentamos entender o que se passava", recorda.

Encontraram que a preferência era muito maior em Portugal do que na vizinha Espanha, algo que lhes chamou bastante à atenção e para o qual encontra vários motivos.

"É um jogo de retribuição fácil. A pessoa joga e sabe logo se tem prémio, não tem que esperar uma semana para que haja um sorteio", aponta como a primeira explicação.

Outra razão: "é um jogo barato". Há três famílias de "raspadinhas" em Portugal, com preços que oscilam entre 1 e 10 euros, e que, em algumas modalidades, oferecem além do lucro imediato pagamentos mensais que se podem alongar até 14 anos.

Uma suculenta possibilidade num país em que o salário médio escassamente ultrapassa -depois de impostos- os 1.000 euros.

"Qualquer pessoa tem acesso, há muitos postos de venda e muita publicidade direta e indireta. E depois, é um problema que afeta as pessoas mais pobres e desprotegidas", continua Morgado.

O JOGO PREFERIDO DE PORTUGAL

Este especialista mostra-se preocupado de que o Estado esteja a promover o consumo de um jogo que, depois de 25 de existência, se tornou no preferido dos portugueses.

A "raspadinha" representa já 51% das vendas totais dos jogos da Santa Casa da Misericórdia, entidade responsável pelos jogos de apostas em Portugal, que indica à Efe que no ano passado vendeu mais de 745 milhões destas.

Além das mencionadas "três famílias", sempre disponíveis, em determinados momentos do ano são lançadas "emissões especiais" deste jogo.

As receitas geradas por este e restantes jogos sociais revertem numa longa lista de beneficiários, entre os quais se inclui a própria Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que realiza tarefas sociais, a Presidência do Conselho de Ministros, assim como vários ministérios, entre eles o da Saúde ou Educação.

Morgado, que não oculta a sua preocupação com a chegada de uma nova "raspadinha", propõe a criação de "um cartão de jogador que fosse indispensável para comprar" esta aposta, e com isso limitar os efeitos nocivos sobre os mais vulneráveis.

Por Cynthia de Benito