EFELisboa

Não podem mais perante a falta de recursos e de pessoal e querem que o país seja consciente que, a este ritmo, a Saúde pública corre sério perigo. Os médicos e enfermeiros de Portugal, asfixiados, gritam agora que chegaram ao limite após anos de resistência.

Já não é viável fazer mais com menos. Essa é a mensagem que lançaram nas diferentes mobilizações que enfermeiros, médicos e até anestesistas protagonizaram nos últimos meses, que foram aumentando e são já evento habitual na vida pública.

As greves geraram nos cinco primeiros meses do ano ausências laborais equivalentes a 72.000 dias de trabalho perdido; em idêntico período de 2015, quando o contestado Governo do conservador Pedro Passos Coelho enfrentava também o seu último ano de legislatura, foram o equivalente a 38.000 dias.

Agora deram mais um passo, juntando-se numa greve nacional para dar uma aparência mais contundente à mensagem: faltam recursos humanos e financeiros.

Os trabalhadores da saúde denunciam que não conseguem dar conta da situação, que estão sobrecarregados de horas extras para garantir o atendimento aos pacientes e que mesmo assim não chega.

Descrevem uma situação que se vê diariamente em cheios corredores de hospitais e que emerge periodicamente através de variados estudos, o último, conhecido esta quarta-feira, é que as cirurgias atrasadas se duplicaram nos últimos quatro anos, mas há mais.

Por exemplo, que as quedas dos pacientes são o incidente de segurança mais reportado nos hospitais do país, consequência direta, segundo os profissionais, de ter menos médicos e enfermeiros para cuidar dos doentes, cujo número não deixa de crescer graças ao envelhecimento da população.

Também levantou poeira a prevista falta de especialistas em obstetrícia e anestesistas durante o verão, que levou até as autoridades a contemplar a possibilidade de fechar as urgências de algumas maternidades devido à impossibilidade de organizar os turnos.

"O colapso é iminente", denunciou ao semanário Expresso o presidente do Colégio de Neonatologia, Daniel Virella, que se juntou a outros profissionais de saúde para pedir medidas concretas que, desde o Governo, não veem necessárias.

"A Saúde pública está hoje melhor que em 2015", afirmou o ministro das Finanças, Mário Centeno, argumentando que cresceu o número de médicos e enfermeiros.

A frase tem o seu reverso. É certo que, desde 2015 e até maio deste ano, a Saúde pública aumentou em 10% o número de especialistas, mas a chave está em que não trabalham exclusivamente nisto.

Em 2009, Portugal pôs fim à figura laboral da "dedicação exclusiva" dos trabalhadores da saúde, porque, argumentou-se então, "era cara".

O argumento era que se gastava muito nos suplementos e com o pagamento das horas em urgências -mais avaliadas então no público-, pelo que se permitiu que os trabalhadores de saúde também trabalhassem, de forma simultânea, no privado.

Atualmente, 70% dos especialistas move-se entre estas duas águas. Embora haja mais profissionais a trabalhar, na realidade há menos especialistas em monopólio na Saúde pública.

"O Ministério da Saúde tira estatísticas de reforço de médicos que depois não se traduzem no terreno", expõe à Efe o presidente da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.

Guimarães destaca que os médicos estão a fazer agora mais 1,5 milhões de horas extras anuais das que faziam em 2014, um trabalho suplementar que "equivaleria ao que 3.239 médicos fazem".

A situação levou a que atualmente 66% dos médicos estejam "exaustos emocionalmente", segundo um estudo encarregado por esta organização.

A outra grande reivindicação é o investimento, que o responsável da Ordem dos Médicos descreve como um "subfinanciamento" na realidade.

Num recente relatório, a Comissão Europeia alertou que a despesa pública total na Saúde em Portugal tinha estado a reduzir-se, representando atualmente 9,1% do PIB, enquanto a média europeia se encontra em 10,2%.

Per capita, a despesa em Portugal é menos da metade do número médio da UE.

Cynthia de Benito