EFELisboa

Durante séculos, os sinos ordenaram o tempo e marcaram o ritmo das cidades. Agora, estudiosos desta "paisagem sonora" reivindicam a sua importância em Portugal e levantam a voz contra o esquecimento deste património cultural.

A Universidade de Évora adianta-se à celebração do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, no próximo dia 18 de abril, com um fórum online sobre a história e linguagem de um dos instrumentos mais antigos do mundo: o sino.

"Os sinos falam, comunicam, são parte de uma tradição de códigos sonoros", explica à Efe Rodrigo Teodoro de Paula, professor e investigador brasileiro da Universidade de Évora e um dos participantes do evento.

O ato por videoconferência, marcado para o próximo dia 16, vai contar com especialistas portugueses e brasileiros que irão fazer um percurso pela história dos sinos em Portugal e defender mais proteção para que o ofício não caia no esquecimento.

O sino tem sido uma forma de comunicação "praticamente imprescindível" desde o século XII, afirma o especialista. Marcava os rituais da liturgia, mas também avisava de falecimentos, de ameaças, da proximidade do inimigo, de celebrações.

O toque manual do sino foi declarado Património Imaterial Nacional no Brasil em 2009 e dez anos depois em Espanha.

ORIGEM DOS SINOS EM PORTUGAL

"Ao princípio, os fundidores que trabalhavam em Portugal vinham de Espanha, principalmente de Cantábria", explica o investigador. Depois "houve um período de nacionalização e Portugal começou a produzir os seus sinos".

Embora não exista ainda um registo completo, alguns inventários estimam que há cerca de 650 sinos históricos no país, número que Teodoro de Paula acredita ser maior, e cita exemplos de incalculável valor que continuam hoje a funcionar.

É o caso do sino da catedral de Évora, operativa e com mais de 700 anos de antiguidade, ou o "maior carrilhão do mundo, do século XVIII, em Mafra", aponta.

SOM UNIDO AO FOLCLORE

Onde toca um sino, nasce uma história. E as lendas populares multiplicam-se, como o chamado "sino do milagre" de Velilla, em Aragão (Espanha), que se acreditava ter sido feito com as trinta moedas pelas quais Judas traiu Jesus Cristo.

Segundo o etnólogo brasileiro João da Silva Campos, no início do século XX era comum ouvir sinos no Brasil em tom de funeral quando uma rapariga branca se casava com um jovem negro.

Outras lendas escondem amores proibidos, como a relação entre o rei português Pedro IV e a freira Augusta Toste, tocadora do sino do convento da Esperança em Angra do Heroísmo (Açores), cuja figura serve também para reivindicar o papel das mulheres neste ofício.

"Muitas pessoas pensam que o ofício de tocador de sino está associado a homens e isso não é verdade. Elas existiam, tocavam e, até hoje, tocam", afirma Teodoro de Paula.

O objetivo agora é "preservar o instrumento e também os tocadores de sinos", afirma este especialista brasileiro, confiante de que Portugal irá avançar neste caminho, pois quando se fala de sinos "as pessoas começam a contar histórias" e reviver as suas tradições.