EFELisboa

"Como se está a sentir?" é uma pergunta tabu para boa parte dos portugueses, com tendência a uma auto-silenciada tristeza, algo que procura acabar um festival que encoraja a falar alto e claro sobre o que atormenta a mente no país da "saudade".

"Mental" é um evento que se realiza durante várias semanas de novembro em teatros e salas de Lisboa e Porto com atividades como cinema, teatro, dança e debates nos quais participam neurólogos, psicólogos e psiquiatras, entre outros, com a saúde mental como eixo.

"O 'Mental' é um festival que tem como objetivo primordial combater o estigma na saúde mental para toda a sociedade. É um festival dirigido a todas as pessoas, daí que tenha uma programação preparada para todas as idades", diz à Efe a sua diretora, Ana Pinto Coelho.

Desde yoga para crianças a palestras sobre a demência dirigidas à terceira idade. Há projeções de filmes e debates, ocasiões para perguntar o que se costuma esconder no mais fundo e que, ao ficar ao descoberto, revelam que são mais frequentes do que se acha.

Fazê-lo é um desafio porque é enfrentar um tema que se demonstrou fértil para os preconceitos, como por exemplo que pedir ajuda é "coisa de fracos" e, segundo, porque se considerou parte da idiossincrasia portuguesa.

Fado, drama, "saudade", frio. Uma espécie de slogan exótico para estrangeiros -há até mapas que indicam os melhores lugares para chorar em Lisboa- e que boa parte da sociedade acabou por assumir como parte da identidade nacional.

Dados da Direção Geral da Saúde e da ONG Eutimia, dedicada a estudar a depressão no país, indicaram que 400.000 cidadãos -de uma população de dez milhões- padecem depressão, e que Portugal "é o país de Europa com a taxa de depressão mais elevada".

Por sua vez, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental estima que "a depressão afeta ao longo da vida cerca de 20% da população portuguesa e é considerada a principal causa de incapacidade e a segunda causa de perda de anos de vida saudáveis".

Um problema do qual as autoridades são conscientes.

"A depressão em Portugal tem características epidémicas, é uma epidemia silenciosa", reconhecia no passado ano numa entrevista com a Efe o agora ex-ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, que considerava a saúde mental como "uma prioridade" para a saúde pública.

Mas este aspecto não deve ser trabalhado só em consultas, defende o festival "Mental", criado em 2017, que "tem como objetivo primordial falar claro e claramente sobre a saúde mental", expõe no seu website.

Os responsáveis pelo Mental querem acabar com o silêncio auto-imposto e que os cidadãos expressem as suas emoções.

"Todos nós teremos alguma vez em nossa vida um período, uma fase, em que sofreremos um problema de saúde mental, e raramente queremos de uma maneira geral admiti-lo, porque ainda há muita vergonha", lamenta Coelho.

Essa admissão representa enfrentar, por exemplo, "esse complexo de que sozinhos somos capazes do resolver, porque se não, somos fracos".

Sair dessa solidão é uma das prioridades do festival, um caminho que se inicia com uma simples pergunta que se tornou no seu lema: Como se está a sentir?

"Se uma pessoa vai falando, inclusivamente consigo mesma, e faz auto-análise de como se sente, e em lugar de não dar importância ao que está a sentir, dá-lhe valor, está a pôr em primeiro lugar a sua saúde mental", explica Coelho.

"E a partir do momento em que está bem consigo mesmo consegue estar também bem com os outros", resume.

O desejo dos responsáveis do "Mental" é que a saúde mental seja vista com a mesma importância que a física, que se peça ajuda com a mesma diligência.

"Temos corpo, temos mente, temos saúde física e mental. Isto é muito simples, trata-se de dar a mesma atenção", e "procurar um profissional quando se precisa".

"Ser forte é isso. Ser forte não é só aguentar, diz Coelho, que se mostra preocupada porque a tendência de calar se veja mesmo em "creches", em casos de crianças que perdem algum avô "e estão tristes, mas têm vergonha de falar".

Uma questão, destaca, muito interiorizada em Portugal.

"Chamavam-nos os 'chorões', não? Acho que os portugueses são capazes de ser muito tristes, sim", afirma, embora considere que problema central é que "em sociedade não nos tratamos bem uns aos outros".

O primeiro conselho para uma boa saúde mental? "Estar atento a si próprio, muito atento. Não minimizar a importância dos dias tristes", recomenda.

Cynthia de Benito