EFELisboa

Uma exposição inaugurada esta terça-feira em Lisboa mostra o percurso vital e profissional do luso-chileno Carlos George Nascimento, que divulgou as obras de grandes literatos chilenos, entre eles Pablo Neruda, de quem editou a sua primeira obra.

A exposição "Nascimento: de mar a mar, uma odisseia editorial" é um tributo ao homem que apostou pelo talento de escritores e poetas como Neruda e Gabriela Mistral -ambos Prémios Nobel posteriormente- e por outros grandes nomes chilenos como Marta Brunet, Vicente Huidobro, Nicanor Parra, Maria Luisa Bombal ou Manuel Rojas.

"Eles não eram ninguém e o meu avô atreveu-se a publicá-los. Eram todos escritores nacionais, pelo que o chamam o editor dos chilenos", comentou à EFE a neta de George Nascimento, Ximena George-Nascimento, de 72 anos.

Carlos George Nascimento nasceu em 1885 no arquipélago dos Açores, na ilha do Corvo, da qual emigrou em 1905, primeiro para os Estados Unidos e depois para o Chile, onde ficou encarregado da livraria de um familiar distante.

Os herdeiros mais diretos não puderam ficar com o negócio por estarem em Portugal e este passou a George Nascimento, que acabou por ter que ficar com ele após tê-lo tentado vender sem sucesso.

Autodidata e filho de uma família de caçadores de baleias, George Nascimento criou em 1917 a editora "Editora Nascimento" com a ajuda da sua mulher, Rosa Elena Márquez, cuja agudeza literária foi chave no sucesso da editora, ressaltou Ximena.

O poemário "Crepusculario" (1923) foi a primeira obra de um então jovem Neruda publicada pelo editor luso-chileno.

Ximena relembrou como se criou a edição desta primeira obra, que antecedeu a famosa "Veinte poemas de amor y una canción desesperada" (1924), também publicada por Nascimento.

"O meu avô era muito respeitoso na sua relação com os escritores. Mas sei que a primeira vez que Neruda chegou disse-lhe que os seus poemas de 'Crepusculario' estavam muito bem, mas pediu que regressasse em poucos meses. Assim foi e, um tempo depois, o poemário estava melhor e editou-o", lembrou.

Entre 1919 e 1986, a "Editora Nascimento" publicou mais de 6.000 títulos, que incluíam um vasto catálogos de textos de estudo, livros de história, poesia ou ficção.

Em 1987, quase 20 anos depois da morte de George Nascimento (1966), a editora fechou por duas razões, segundo Ximena: a censura no Chile pela ditadura de Augusto Pinochet e a falta de modernização do modelo de negócio, que era então dos filhos de George Nascimento.

"Nascimento: de mar a mar, uma odisseia editorial", exposta desde esta terça-feira até 31 de agosto na Biblioteca Nacional de Portugal em Lisboa, é organizada pela Biblioteca Nacional do Chile e a Embaixada do Chile.

A exibição lisboeta, que num formato maior já esteve exposta em 2014 na Biblioteca Nacional do Chile, acolhe fac-símiles, fotografias e uma cronologia para entender o peso cultural do "editor dos chilenos".