EFEGuarda (Portugal)

O ex-jogador português João Alves, que como jogador rejeitou uma oferta do Real Madrid para assinar pelo Benfica, volta após cinco anos à posição de treinador à frente da Académica de Coimbra, clube decano de Portugal ao qual tentará levar de novo à Primeira Divisão.

Alves, que por Espanha, em meados da década de 70, jogou na extinta União Deportiva Salamanca, à qual também treinou, tornou-se popular no futebol espanhol por jogar sempre com luvas pretas.

Também passou pelo Paris Saint Germain e descobriu jogadores como Pedro Pauleta, e disse hoje numa entrevista com a EFE que nem teve nem terá agente, apesar de estar consciente que tal representa-lhe um problema.

Pergunta: Aos seus 65 anos, depois de uma bem-sucedida etapa na Suíça, porque volta a treinar?

Resposta: Porque tenho vontade de treinar, com a Académica tenho muita união, estive aqui há 16 anos e consegui então que voltasse à Primeira Divisão de Portugal. Além disso, é um clube histórico e a cidade é muito bonita. O desafio não é fácil, mas eu sempre fui otimista.

P: Que sistema e metodologia de jogo usa?

R: Adaptar o sistema aos jogadores e não os jogadores ao sistema. É muito simples, aproveito o melhor dos melhores para preparar o melhor onze. Agora, tenho que recuperar psicologicamente os jogadores, já que começaram mal a competição e depois todos a funcionar.

P: Recusa ter agente intermediário.

R: Há empresários que têm dois ou três clubes, é preciso parar um pouco e refletir, porque isto é uma barbaridade. Este futebol não tem nada a ver com o futebol de há tempo.

P: Se tivesse tido agente, já teria sido treinador do Benfica ou da seleção de Portugal?

R: Sim, além disso, eu tive contatos para treinar tanto o Benfica como a seleção portuguesa, mas houve sempre alguém que esteve contra mim, que o impediu.

P: Ainda é possível?

R: Como vou responder a isso!. Logicamente é muito difícil, embora imagina que agora com o Coimbra faço o mesmo que fiz com o Servette da Suíça, que o peguei na segunda e levei-o à Liga Europa. Mesmo assim é muito complicado, já tenho 65 anos, é muito difícil.

P: Do seu avô, que também foi jogador, herdou jogar sempre com luvas pretas, como ele fazia, e inclusive criou a Escola de Futebol Luvas Pretas.

R: É uma escola na região do Alentejo onde tenho treinador, pais de crianças, é algo muito familiar, não é um negócio, é algo simbólico de um grupo de pessoas que temos amizade que se criou há 12 anos.

P: Regressou a Salamanca em 1996 como treinador graças ao seu amigo e então presidente Juan José Hidalgo.

R: Foi muito "sui géneris", já que quem me contratou é agora um dos grandes empresários da Europa, Juan José Hidalgo (Air Europa), que eu o conheci porque era o motorista do autocarro que nos transportava quando eu jogava (entre 1976 e 1978) em Salamanca e depois foi o presidente do clube, ao qual admiro e com quem tenho grande amizade.

P: Esse ano revolucionou o futebol com um desembarque de jogadores portugueses à UD Salamanca, tais como Pauleta, que hoje é o diretor da Federação Portuguesa de Futebol.

R: Chegaram grandes como Taira, César Brito, Pauleta, Zé Roberto, Rogério ou os brasileiros Giovanella ou Catanha.

P: Como se lembra de Pauleta, que mais tarde se tornou em estrela mundial de futebol?

R: (Risos) O que passou foi muito simples, Pauleta - com 23 anos - chegava de graça ao Salamanca e o departamento médico rejeitou-o porque tinha uma pubalgia, algo que a maior parte dos jogadores tem. Eu disse ao presidente (Juan José Hidalgo) que assumia a responsabilidade para que o Pauleta ficasse e confiou em mim. Agora com o Pauleta mantenho uma excelente relação.

P: Como jogador, na sua etapa de Salamanca, foi considerado melhor jogador estrangeiro da Liga Espanhola, apesar de que naqueles anos jogavam Cruyff ou Kempes, motivo pelo qual em 1978 o Real Madrid o quis contratar e você rejeitou a oferta.

R: Fiz uma burrice, perdi uma grande oportunidade, era o máximo, rejeitei jogar no melhor clube do mundo e foi por minha culpa. Não aceitei a oferta porque queria jogar com o Benfica, já que entre o Salamanca e o Madrid estava tudo feito.

P: Que amigos continua a ter após a sua etapa de jogador e treinador no futebol espanhol?

R: Tive boa relação com Johan Cruyff; daquela equipa de Salamanca dou-me muito bem com Pedraza, Ángel, Bustillo. E tenho muito boa relação com Vicente del Bosque.

Carlos García